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ETNOGRAFIA

um mundo sensorial... o domínio do tacto, do olfacto, do gosto e da sensação, traduzido num povo de muitas tribos e crenças.

Diversidade na Identidade

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  Falar de ocupação e fixação humana nas Terras Altas da Huíla é falar de um complexo encontro de culturas e gentes que, ao longo do tempo, aí se vai fixando.

Poderíamos focar a nossa atenção no grupo Etnolinguístico que, maioritariamente, ocupa a Província, no entanto, julgamos ser importante fazer referência ao multiculturalismo da região que tão bem a caracteriza.

  O Povoamento da verdejante Huíla remonta à Pré-História como tão bem demonstram os inúmeros vestígios arqueológicos identificados em variadíssimos pontos da Província, sendo disso exemplo, e referindo apenas alguns: a Gruta da Leba, os Barracões, o Bairro de Sto. António, Munhino, Comuna do Jau, todos devidamente identificados em levantamentos efectuados na década de 60 do século XX.

  No que toca à diversidade Étnica e cultural típica da região podemos falar na existência de três grupos distintos, os Koisan, povos autóctones do Sul de Angola, os povos de origem Bantu, Nyaneka e a comunidade composta por descendente dos colonos portugueses. Nos seus estudos etnológicos Estermann (1989) refere que esta é, de todas as regiões do território angolano, aquela que possui maior diversidade Étnica referindo-se aos Koisan ou Hotentotes-Bushman e aos Nyaneka que por si só se subdividem em 11 subgrupos.

  Os Koisan do Sul de Angola, embora sendo autóctones, representam, hoje, uma minoria étnica a preservar. Trata-se de um grupo cuja fisionomia e hábitos facilmente se distinguem dos Bantu por possuírem um tom de pele mais avermelhado, estatura mais baixa, membros de ossatura fina, pés e mãos mais pequenos e cabelos cujos cachos crescem distantes uns dos outros. São povos nómadas, caçadores recolectores por excelência cujos abrigos, temporários em função da abundância de caça e frutos para recolecção, são feitos com recurso a troncos de madeira cobertos com vegetação. Praticam a monogamia, praticando apenas a cerimónia de iniciação feminina após a qual o noivo, ao contrário dos Bantu, vai coabitar com a noiva. A sua indumentária é extremamente simples, os homens vestem apenas uma pele de couro segura por um cinto também em couro e as mulheres usam igualmente peles em couro quer traseira quer frontal, quer os homens quer as mulheres usam para se proteger do frio um manto de couro. Pouco se sabe relativamente às suas crenças, no entanto acredita-se que adorem um "Ente Supremo" a quem prestam culto tal como aos espíritos dos antepassados.

  Para além da sua fisionomia a língua dos Koisan é, sem dúvida, um elemento diferenciador entre estes e os restantes povos de Angola falada com os cliques ou estalinhos. Kung é outra designação que identifica os Koisan.

 

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  A designação Bantu não se refere a uma unidade racial mas a um conjunto de povos que têm em comum a sua origem, traços culturais e alguns elementos linguísticos. Originários do Sudeste da actual Nigéria e de perto do Lago Tchad vão começar a fixar-se no território que hoje constitui o território angolano no primeiro milénio da nossa era. (Luansi, 2003, p.2). Fixam-se em grande número em diferentes grupos etnolinguísticos.

  O palco de acção dos Bantu no Sul de Angola reservou aos Nyaneka a região da Huíla, estes subdividem-se em Ovanyaneka, Ovamwuila, Ovacilenge, Ovahumbi, Ovahanda de Quipungo, Ovahanda da Mupa, Ovaquipungo, Ovankumbi, Ovandongwena e Ovahinga.

  Trata-se de um grupo cujas actividades principais são a agricultura e a pastorícia com uma cultura extremamente rica assente em hábitos e costumes seculares.

  No que toca aos seus hábitos e costumes há vários aspectos a considerar: a sua organização politica e social, sua vida familiar, suas actividades económicas e suas crenças.

   Abaixo do Rei estão os Seculos que tratam da administração dos territórios. Entre os mais ricos e importantes o Rei escolhe os seus conselheiros e homens de guerra. A sucessão é feita segundo a lei do matriarcado, sendo o sucessor do rei ou o seu irmão mais novo ou o seu sobrinho materno mais velho. (Estermann,1983, p.29).

  É importante, por isso, não confundir a figura o Ohamba com a do Soba. O Soba é uma autoridade tradicional que faz a ligação entre as comunidades e a Administração do Estado.

  A organização familiar é determinada pela lei do matriarcado, considerando o parentesco segundo descendência uterina. Segundo esta lei o tio materno é aquele que exerce autoridade no geral, filosofia que se aplica igualmente no que diz respeito à sucessão e herança que passa do tio para o sobrinho, filho da irmã mais velha. (Estermann, 1983, p. 26).

  No seio destas comunidades os rituais de iniciação masculina e feminina representam uma tradição fortemente enraizada onde os rapazes passam pela circuncisão, Ekwenje e as meninas pelo Efiko, após o qual as meninas estão prontas para casar. No ritual do casamento é comum a família do noivo oferecer o dote pela noiva, dote que em caso de divorcio deve ser devolvido à família do noivo. As cabeças de gado constituem sempre a parte mais significativa do dote podendo ser acompanhada por outros consumíveis ou objectos de valor.

No que toca à organização politica e social pode dizer-se que estes povos assumem uma organização monárquica cujo Rei, Ohamba, é senhor absoluto da terra e dos seus súbditos.

No que toca à organização politica e social pode dizer-se que estes povos assumem uma organização monárquica cujo Rei, Ohamba, é senhor absoluto da terra e dos seus súbditos.

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Breve Introdução à Cultura Nyaneka

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  Estermann (1983, p.27) diz que os grupos familiares estão divididos em clãs, clãs totémicos, que assumem designações de animais ou plantas, semcontudo haver nenhuma associação religiosa aos totems assumidos por cada família.

  No sei dos Nyaneka é praticada a poligamia onde um chefe de família pode ter várias esposas.

  A indumentária dos Nyaneka sofreu grande influencia dos povos europeus, no entanto, é ainda possível observar alguns traços originais especialmente na indumentária feminina como o uso das saias de pele, cintos em couro ornamentados com missangas e o uso de objectos de adorno típicos deste grupo como as gargantilhas e as pulseiras de pulso e tornozelo. Ainda entre as mulheres os penteados assumem um papel diferenciador indicando o seu estado civil, uma menina antes e depois da festa de iniciação, uma mulher solteira, casada ou viúva.

  A pastorícia e a agricultura constituem as principais actividades económicas dos Nyaneka. A riqueza e poder de um individuo no seio destas comunidades mede-se em função do número de cabeças de gado que possui. A Organização do Trabalho é feita entre Homens e Mulheres cabendo aos homens a pastorícia, a caça e a metalurgia e às mulheres os trabalhos agrícolas, todo o trabalho domestico, a cestaria e olaria.

  Os Nyaneka crêm na existência de um Ente Superior, Deus, designado entre eles Huku ou Suku, um ser supremo e criador. Como intermediário entre o mundo dos espíritos e o mundo dos vivos aparece a figura do feiticeiro que é, ao mesmo tempo, sacerdote/sacrificador e adivinho/curandeiro. (Estermann, 1983, p.29).

  A par dos grupos acima mencionados encontramos ainda na região da Huíla uma população branca, descendente dos colonizadores portugueses que aí se fixaram em finais do século XIX.

 O clima e a qualidade dos solos cedo chamaram a atenção dos portugueses para as verdejantes terras altas da Chela.

Bibliografia:

Estermann C. (1983), Etnografia de Angola (Sudoeste e Centro), vol I. Lisboa.

Luansi L, (2003) Angola: Movimentos migratórios e Estados pré-coloniais  - Identidade nacional e autonomia regional.

International symposium Angola on the Move: Transport Routes. p. 24-26. Berlin.

  Consideramos que a ocupação portuguesa teve como base quatro pontos essenciais: a criação de Alba Nova (Huíla) em 1769, a colónia de S. Januário na Humpata em 1881, a Colónia de Sá da Bandeira no vale do Lubango em 1885 e ainda em 1885 (Setembro) a colónia de S. Pedro da Chibia, na Chibia, dos quais se vai destacar ao longo dos anos a colónia de Sá da Bandeira a cujo os primeiros colonos, oriundos da Ilha da Madeira, se vieram juntar outros colonos provenientes de outras localidades de Portugal. Instalaram-se ali, engenheiros, médicos, professores, altos funcionários públicos impulsionando o crescimento da pequena colónia que em poucos anos, 31 de Maio de 1923, é elevada a categoria de cidade, cidade de Sá da Bandeira.

  Consigo trouxeram os colonos os seu hábitos, costumes e Fé, a Fé Cristã.

Como se pode ver o encontro de culturas é uma realidade incontestável. Se por um lado temos a rica cultura da maioria Bantu, por outro temos também inúmeros vestígios da cultura e ocupação portuguesa, reflectida sobretudo na comunidade de origem portuguesa, na arquitetura colonial e na religião que por si só é o grande ponto de encontro entre as gentes da Huíla.

"A diversidade na identidade é, no fundo, o encontro de hábitos, costumes e tradições deu origem ao que designamos hoje de "nossa identidade", a identidade angolana."

Por

Soraia Santos

Directora do Museu Regional da Huíla

Bibliografia:

Estermann C. (1983), Etnografia de Angola (Sudoeste e Centro), vol I. Lisboa.

Luansi L, (2003) Angola: Movimentos migratórios e Estados pré-coloniais  - Identidade nacional e autonomia regional.

International symposium Angola on the Move: Transport Routes. p. 24-26. Berlin.

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Os Kamatembas

da Humpata

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Distrubuição étnica em Angola

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O Quotidiano do Povo San